terça-feira, maio 10, 2005

A Europa velha, rica, gorda e impotente

PÚBLICO - EDIÇÃO IMPRESSA - NACIONAL


Director: José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos: Nuno Pacheco e Manuel Carvalho

POL nº 5524 | Terça, 10 de Maio de 2005


Ernâni Lopes crê que Portugal pode ultrapassar cenário de "definhamento"

Eunice Lourenço

Num almoço com deputados e ex-deputados, o ex-ministro das Finanças disse que a Europa está "velha, rica, gorda e impotente"

"Temos a capacidade para passar do cenário fraquinho de definhamento para o de afirmação", disse ontem o ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes, naquele que foi o primeiro almoço promovido pela Associação de Antigos Deputados, na Assembleia da República. O ex-ministro e representante do Governo português na convenção que trabalhou o tratado constitucional europeu começou por traçar um cenário preocupante sobre a Europa, mas terminou com um sinal de esperança para Portugal.
A Europa, disse, está "velha, rica, gorda e impotente". E passou a explicar: velha porque "os europeus não fazem filhos, nem morrem devidamente"; rica porque ainda é a zona economicamente com mais stock; gorda porque "instalada e a viver bem, não precisa de trabalhar"; e impotente porque "incapaz de projectar poder". Ernâni Lopes também alertou para a necessidade de rever o modelo social europeu. "Podemos preservar um mínimo. Se quisermos manter e aprofundá-lo, autodestrói-se", disse, considerando que a "globalização competitiva" destrói grande parte do tecido económico na Europa.
Quanto a Portugal, o ex-ministro, que assinou o tratado de adesão de Portugal à então CEE, falou do "surto de desenvolvimento" que se seguiu à adesão plena em 1986 e traçou quatro períodos que se seguiram: o tempo do "conforto assumido" nos anos de Cavaco Silva e António Guterres; o do "confronto com a realidade"; o de "reencontro com os mecanismos de ajustamento" que, disse, "é aquele que começou com a Manuela [Ferreira Leite] e não [sabe] se continua ou não"; e o de "exigência de redefinição do posicionamento estratégico de Portugal".
Ernâni Lopes define a actual situação portuguesa como de "cenário espontâneo de definhamento", explicando que "definhamento" não quer dizer recessão nem a economia portuguesa irá acabar, significa que é como um doente que definha, "não morre nem fica bom". Este conceito, continuou, foi apresentado ao ministro da Economia em 2000 tendo como contraponto um "cenário aspiracional de afirmação". E, então, o que é preciso para mudar de cenário? Segundo o ex-ministro das Finanças é preciso apontar em cinco sectores.
O primeiro é o turismo, "o mais óbvio e em que temos melhor ponto de partida", disse Ernâni Lopes, colocando o ambiente em segundo lugar e as "cidades e desenvolvimento" a seguir. Depois vem o que chama de "serviços de valor acrescentado" e que passa por "aproveitar as condições portuguesas para gerar valor", captando os "velos e ricos do Norte da Europa". Por fim "o mais difícil e em piores condições": a economia do mar, onde "há tudo a fazer".
No entanto, onde Portugal vai jogar o seu futuro enquanto país, no primeiro quartel deste século, segundo Ernâni Lopes, é na articulação das "quatro componentes da geo-política": Portugal, Europa, África e Brasil. Se Portugal falhar na ligação destas quatro componentes fica sem papel relevante a desempenhar. "Mais vale ter um mau papel do que não ter papel", disse, prometendo: "A última tarefa da minha vida vai ser isto. Nesta relação joga-se o futuro de Portugal e, quando se joga o futuro de Portugal, não gaguejo."
A terminar, o ex-ministro deu uma nota de esperança ao dizer que os portugueses têm três características únicas essenciais para vencer os desafios que lhes colocam: a resiliência (capacidade de um corpo físico que, sujeito a pressões e torções torce, verga dobra, mas não parte), a flexibilidade e a adaptabilidade. "As provas que Portugal deu deste 1975 nestas três características são inultrapassáveis", concluiu.