Os Portugueses de África – Geração Esquecida
Nos idos de 40, os meus avós agarraram nas trouxas e mudaram-se de família às costas (que as armas e as bagagens não eram muitas) para outro continente do outro lado do mundo. Levaram filhos e sonhos e jogaram uma partida sem destino certo ou retorno seguro. Fizeram aquilo que o povo português melhor faz: foram à vida.
A história dos meus avós é a historia de milhares de famílias portuguesas. Numa terra pobre e piquena, onde a vontade de uma vida melhor esbarrava nos muros de xisto que delimitam as leiras beirãs, a emigração tornou-se a única saída para toda uma geração de inconformados. Os que ficaram, ou já tinham previlégio, ou aceitaram viver acomodados.
Nunca na minha família se falou muito desses dias em que os meus avós, com o meu pai e mais 3 filhos de fraldas, decidiram embarcar num navio e sofrer um mês de viagem por mar até chegar a Angola. Parece que o meu avô foi primeiro e arranjou trabalho numa terra do interior, nada mais que uma encruzilhada com uma estação de caminho de ferro, até chamar a minha avó para se lhe juntar mais os filhos. Essa terra cresceu até se tornar a capital do Planalto central angolano, antes Nova Lisboa, onde nasci, hoje Huambo.
Desses anos de chumbo, desbravando um país inóspito mas cheio de promessas, ouvi pequenas histórias, as mais famosas envolvendo pancadaria de criar bicho, numa orgulhosa versão tropical do faroeste, envolvendo correias de bicicleta, cabeçadas em vôo de peixe e demonstrações de força hercúlea do meu avô. Eu acredito, porque aos 70 anos de idade ainda o vi a pegar em móveis de carvalho maciço e com força bruta levá-los sozinho para cima da carrinha para os ir entregar aos clientes. Ouvi as agruras do meu pai e do meu tio, forçados pela vontade da minha avó a ir estudar para o seminário, subjugando a vontade desse avô dominador, muito mais atreito a mantê-los em casa para ajudar na serração. Ouvi a admiração dos meus tios pela perícia contabilística da minha avó, que sem saber ler nem escrever mantinha de memória o deve e haver da venda, sabendo quanto cada cliente lhe estava em falta. Ouvi como o meu avô cubicava a madeira na serração, arte perdida que não se aprende, transmite-se. O meu pai jura que sabe fazê-lo, mas não consegue explicá-lo. Como os filhos se escapuliam ao Sábado para a noite e entravam às arrecuas mesmo a tempo de sair para a missa ao Domingo de manhã. Vinte e muitos anos de vida compilados em meia dúzia de anedotas familiares, nunca bem explicadas, nunca muito claras, envoltas num véu de discrição não sei se devidas ao esquecimento ou à obliteração.
Em 1975, com a Guerra civil e a descolonização, toda a família regressou à metrópole, às arrecuas, como quem chega a casa na madrugada de Domingo a tempo de ir à missa, mas sem fato domingueiro. Voltando sem dote nem herança, numa leva de deserdados, com roupas velhas ou emprestadas, encostando-se pelo país onde os aceitassem a família distante, os amigos ou até desconhecidos, sem riquezas, marfim, dólares ou diamantes. Esses vieram para quem sabia que voltava, não com quem foi para não mais voltar. O país aceitou-os como pôde, e os retornados ajeitaram-se como sabiam, abrindo mercearias, como mestres-de-obras ou qualquer outra coisa, muitos trazendo a experiência de professional, professor, médico, engenheiro, que lhes abriam as portas da vida nas terras do Ultramar.
Está por contar a história dessa integragação, de como um milhão de retornados entra na terra-mãe num espaço de 3 meses, aumentando a população 1 para 10 com essa troupe de rejeitados da sorte, novos, velhos, crianças, por vezes estigmatizados, por vezes mal aceites. Portugal recuperou e para mim cresceu e beneficiou com essa injecção de gente empreendedora, sem casa para voltar, sem esperança senão seguir em frente, com a determinação que a fome, o frio e a Guerra sabem despertar.
Desses dias de vida dura mas feliz em África sobram hoje 3 factos: uma reunião nas Caldas da Rainha, no último fim-de-semana de Junho, todos os anos, onde a minha geração na família já não comparece mas que o meu avô enquanto foi vivo e o meu pai não dispensam; as lágrimas não sei se de tristeza se de revolta que se escondem nos olhos dos meus pais e tios quando veêm a destruição, a miséria e o horror que grassam em Angola, depois de vinte e muitos anos de Guerra civil; e esse facto espantoso para mim, de como um casal de portugueses que entre si não tinha completado a 4a classe, levou pela pura força do trabalho, do orgulho e da vontade toda a geração seguinte (os meus pais e tios) a obter uma educação superior, engenheiros e professores, que depois se verteu na minha geração, um passo adiante, com mestrados, doutorados, juizes e outros, e ninguém sabe onde irá parar.
Olho hoje para este clima de desânimo que grassa em Portugal e penso que deviamos lembrar as histórias destes e de tantos outros portugueses, filhos da miséria e do atraso endémico deste país, que souberam libertar-se das amarras da pobreza, da ignorância e da pequenez, tomar o mundo a pulso, fazer a sua família feliz. E devemos peguntar porque não nós também? Porque não repetir estes feitos tão próximos e tão esquecidos? Porquê viver nesta comiseração de infelizes, porquê não mandar às malvas os profetas da desgraça, arregaçar as mangas, correr os riscos que os nossos avós correram, arriscar ser feliz de novo?
Talvez porque hoje sentimos que tudo nos é devido, sem conta nem ditame, numa orgia de bens e serviços quanto mais altos melhor, a crédito e sem juros. Perdemos a humildade dos pequenos, que sabem que apenas pelo tabalho lá chegarão, e se não me querem aqui vou para outro lado. Só sabemos viver com rede, sempre à espera do subsídio, sem sacrifício para dar. Habitamos um mundo de conformados, subjugados à arte do possível, onde os poderes ocultos nos ganham antes sequer de bater a mão. Por isso não vale a pena procurar melhor, é melhor queixar do vizinho, do Salazar ou do espanhol.
Eu não concordo, está na hora de lembrar os nosso avós e fazer como eles fizeram.
Nota Adicional: Se evoquei aqui a família do meu pai, o mesmo podia dizer da família da minha mãe: de como um avô autodidacta, que escrevia críticas ao regime e poemas de revolta num exercício de cidadania que ainda hoje me engasga, se decidiu a largar este país que o sufocava e partir para Angola para lavrar a própria terra, criar o próprio gado, cantar a própria voz; onde se ergueu contra as desigualdades do sistema, morrendo num acidente infeliz com um camião duma empresa de leite contra quem lutava; de uma avó que trabalhou toda a vida, criando os filhos, cuidando da fazenda, depois criando os netos, cuidando da casa, que recordo com doçura agora, tantos anos passados depois da sua partida, com uma energia vinda não sei donde, de dentro de um corpo pequeno e franzino, que a fazia parecer muito maior do que o que a vida lhe tinha dado; de como estes avós, sem estudos de monta, mostraram aos filhos que podiam ir até onde quisessem, e assim foram, fazendo os estudos até onde quiseram e puderam, mas acima de tudo nos deixando um exemplo de amor familiar que tudo supera, que hoje me orgulha, que amanhã quero passar para os meus filhos.
Aos meus avós Manuel, Madalena, Ernesto e Maria Cândida, por me terem dado muito mais do que aquilo que sonharam.